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24/06/2011 - 11h00m

Uma dose de bom Teatro: Infinito Enquanto Truque desperta reflexões sobre um mundo cada vez mais virtual e solitário

Uma dose de bom Teatro: Infinito Enquanto Truque desperta reflexões sobre um mundo cada vez mais virtual e solitário

 

 

Diogo Braz

 

As luzes se apagam dissipando os sussurros da plateia, o som do trompete de Miles Davis anuncia o início do espetáculo. É o momento de esquecer tudo e mergulhar na magia do teatro. É com esse universo que Lael Correa parece realmente se misturar. Na peça Uma Dose de Chuva, que está em temporada no Espaço Cultural Linda Mascarenhas até dois de julho, pode-se perceber algumas das reflexões e inquietações criativas do artista plástico, ator, autor e diretor. No comando do grupo Infinito Enquanto Truque, Lael acerta a mão em um texto que traz um belo e angustiado retrato da solidão humana, urbano e quase atemporal; um olhar em três ângulos sobre as dificuldades de relacionamento e comunicação de três pares de pessoas, como se aquele universo do teatro estivesse agora separado em três camadas de leituras distintas. 

Na primeira, as personagens dão vida a excertos do texto da peça Fala Comigo Como a Chuva... E Deixa-me Ouvir, do dramaturgo estadunidense Tennessee Williams. Os atores Cid Brasil e Paula Gomes ficam encobertos por uma tela enevoada do cenário, um recurso inteligente para separá-los e estabelecê-los numa época passada. 

A segunda camada é povoada por um casal pós-moderno de atores, interpretado por Larissa Fontes e Bruno Alves. Esse casal observa as personagens de Tennessee Williams e as relaciona com seus próprios conflitos, e é aí que o texto de Lael começa a pisar nos calos do espírito humano. A dificuldade de se comunicar com os semelhantes é muito bem trabalhada, ao ponto do espectador não identificar de imediato se aquelas pessoas estão ligadas por amor ou ódio. Os sentimentos de solidão e vazio parecem gritar nos diálogos, que tratam da virtualidade dos tempos atuais, da busca por sentidos nas coisas ao redor e principalmente sobre a capacidade de se relacionar com as pessoas e com o mundo.

Na terceira, Lael consegue que o mergulho nos universos propostos pela peça seja completo, ao colocar os “espectatores” Guga Gomes e Ticiane Simões no nível da plateia, discutindo as realidades apresentadas e interagindo com os espectadores. Nessa instância, as discussões são ainda mais próximas do público, analisam o teatro e o próprio texto da peça, falam sobre acontecimentos recentes, sobre como a rotina e um mundo cada vez mais globalizado e informatizado vêm apagando a sensibilidade das pessoas. O diálogo desse par é permeado por ironias e provocações, até que as afinidades vão alinhando os discursos e as máscaras de humor vão caindo e revelando pessoas absorvidas pelos mesmos conflitos das outras personagens.

Todos os atores estão muito bem e conseguem dar a dimensão exata para as questões da peça, sem exageros, evoluindo com o texto, numa fluidez que se assemelha à chuva que escorre nas janelas de Tennessee Williams e de Lael Correa. “O elenco da peça foi escolhido por simpatia, intuição e demorada observação. Antes de iniciarmos o projeto de montagem, já havíamos iniciado uma relação de amizade e isto não é fácil e nem é sorte, é uma escolha e uma conquista. Especialmente no teatro, é fundamental que haja diversidade num elenco, modos diferentes de pensar o mundo e a arte. O elenco de Uma Dose de Chuva possui esses diferentes olhares, cada um deles com um modo de sentir, atuar e viver muito peculiar. Afinal, mesmo no teatro, é a realidade, com suas várias camadas e diferentes leituras, que determina e harmoniza os modos artísticos da reflexão. Nas minhas encenações isso é muito importante”, avalia Lael.

Para a atriz Larissa Fontes, o entrosamento entre a equipe da peça propicia o bom resultado no palco. “Trabalhar com o Lael é, acima de tudo, uma grande oportunidade de aprendizado e crescimento. O clima entre os atores do espetáculo é de muita brincadeira. Alguns deles já vêm comigo desde a Escola Técnica de Artes da UFAL. Todos são apaixonados pela peça, o que torna tudo melhor”. Ela também explica o processo de criação das personagens e avalia como elas têm tocado o público que tem assistido à peça. “Desde o meio do ano passado, nos encontrávamos mais ou menos uma vez por semana na casa do Lael para ler e discutir o texto. Foi um período em que nós, atores, buscávamos diversas referências, desde pessoas reais até filmes, livros e músicas. As pessoas têm se identificado muito com o texto. As personagens dizem coisas que vêm muito a calhar hoje em dia na vida de qualquer pessoa. Espectadores de todas as idades estão vindo conversar com a gente e a resposta não poderia ser melhor. Estamos tocando as pessoas, emocionando, fazendo com que se questionem. Em Uma Dose de Chuva elas se veem obrigadas a olhar para dentro de si e enfrentar o que encontram lá. É muito do que a gente já queria: tocar as pessoas”.

Uma Dose de Chuva propõe mais que uma reflexão sobre a solidão, mas também uma reflexão sobre o próprio teatro. São vários os momentos em que algum dos “espectatores” solta frases como “Isso é o teatro contemporâneo, foram abolir as cortinas...” E as sentenças convidam o público a se sentir parte do espetáculo e parecem reafirmar que não há ali divisão entre palco e plateia: o próprio público também desempenha um papel na peça. “É muito comum ver o teatro discutindo o próprio teatro, refletindo o fazer teatral e mostrando as ‘cartas na manga’, até mesmo para reforçar e fazer valer a discussão proposta pela peça. Eu sempre fico impressionado com o poder de proporcionar a reflexão que as artes possuem, mas fico ainda mais impressionado em ver como esse poder tem sido relegado a um plano secundário no mundo contemporâneo. Creio que a arte só possui valor ou importância quando propõe reflexões e questionamentos. Sem isso, ela torna-se mera distração e diversão banal”, analisa Lael.

Essa preocupação em despertar a reflexão do público para temas que reflitam a alma do homem, do seu tempo e de sua sociedade tem sido recompensada pelo público, que tem comparecido ao Espaço Cultural Linda Mascarenhas para aplaudir o espetáculo, que ainda tem futuro incerto. “Todos nós torcemos para que a peça tenha muitas temporadas de vida. Ela só tende a crescer”, espera Larissa. “Não há previsões de uma nova temporada e nem sequer de alguma exibição avulsa do espetáculo, mas esse é o destino de quase todo espetáculo em Maceió. Com sorte, conseguiremos algumas apresentações em cidades do interior”, lamenta Lael. 

Sendo assim, por ora, restam poucas oportunidades para o público conferir Uma Dose de Chuva e mergulhar no denso universo de Lael Correa, Tennessee Williams e Infinito Enquanto Truque. Aproveite! Em temporada aos sábados, até dia 02 de julho, sempre às 20 horas, no Espaço Cultural Linda Mascarenhas. Vale a pena!

 

 

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