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30/08/2011 - 05h30m

Oficina do Estúdio Reca traz o grafite para o Linda Mascarenhas

Oficina do Estúdio Reca traz o grafite para o Linda Mascarenhas

Diogo Braz

 

Viver em um meio urbano hoje em dia parece requerer um adestramento dos olhos, para que esses se acostumem a um certo caos visual. Talvez seja o ritmo acelerado com o qual as cidades crescem projetando suas estruturas de concreto em direção ao céu, modificando a paisagem natural, outrora verde. Talvez sejam as vitrines e os outdoors, que tentam escandalosamente chamar a atenção para suas ofertas; ou quem sabe sejam as luzes vermelhas das lanternas dos carros num engarrafamento, como se fossem vaga-lumes irritados. Há um layout confuso em toda cidade, típico, que acaba influenciando a relação de moradores com sua urbe; um caos estético, muitas vezes chamado de poluição visual, que se apresenta como a tela ideal para que jovens artistas desenvolvam o grafite: uma expressão artística, uma intervenção urbana, em desenhos ou inscrições pintadas em muros, em prédios, em pontes... Na cidade!

O grafite é arte e não vandalismo, como alguns possam pensar. Marginalizado, em sociedades que preferem enxergar os traços coloridos de spray como depredação de patrimônio, o grafite ainda é uma expressão tímida em Maceió. Pensando em reverter esse quadro e esclarecer a população, os designers gráficos Daniel Melro, Rafaela Calheiros e Vamberg Nunes, do Estúdio Reca, promoveram uma oficina sobre grafite para estudantes da rede pública estadual de Alagoas no Espaço Cultural Linda Mascarenhas.

A ideia da oficina surgiu quando o Reca ajudou na realização de uma oficina com o grafiteiro paulista Tatu na Barra de São Miguel. A partir daí, os jovens alagoanos pensaram em compartilhar o conhecimento que adquiriram na prática e com o experiente Tatu. “No estúdio a gente trabalha com muita coisa, desde ilustração, sinalização, a embalagem; e a área do grafite é uma área meio que alternativa, experimental, que a gente curte muito fazer: Inclusive tem um grafite nosso aqui no estacionamento da TVE. Já as oficinas são esporádicas. Com a vinda do Tatu, a gente pode aprender um pouco com ele e agora estamos aqui repassando pro pessoal”, explicou Rafaela.

Primeiramente, os oficineiros explicaram para os alunos da rede estadual o que era o grafite, seu surgimento, suas características como arte, seus maiores expoentes, a utilidade social do grafite e como essa arte pode interagir com a cidade e seus moradores. Um dos principais pontos debatidos foi sobre a diferença entre o grafite e a pichação. “O grafite é uma manifestação mais elaborada, é mais ou menos passar a arte para o muro, e a pichação não. A pichação é mais pro pessoal que vai falar do time ou fazer uma crítica ao governo, e é proibida... Pra algumas pessoas a pichação não é considerada vandalismo, mas pro governo é, por isso que ela é considerada crime. O grafite já é algo mais artístico”, explica Vamberg.

Talvez a maior diferença seja porque o grafiteiro quer interagir com a cidade, não no sentido de sujar um monumento ou destruir a beleza de algo. O grafite quer presentear a cidade com uma obra de arte, que, num pedaço harmonioso de muro, faça seus olhos descansarem do turbilhão de informações visuais da cidade. Para entender isso, basta ver o sorriso orgulhoso com o qual Daniel, o grafiteiro do Reca, fala sobre sua relação com artes urbanas. “Eu sou meio viciado em arte urbana. Desde a época do colégio, eu sempre vivia desenhando durante as aulas. Então dei continuidade nessa parte artística, entrei na área do design gráfico, que tem muito contato com a arte, até que a gente montou o Reca e hoje podemos trabalhar com muitas coisas, com o grafite, por exemplo. Isso é muito gratificante”, comemora.

Os estudantes aproveitaram bem a troca de conhecimento da oficina. Para Vander Melo, o grafite pode ser uma opção de profissão no futuro. “Eu achei a oficina muito boa. Já tinha treinado um pouco antes, vim pra oficina pra ter um conhecimento maior e poder praticar um pouco. Agora é só procurar um local bom, conseguir uma autorização e grafitar. Ter o grafite como uma profissão seria muito bom, mas quem sabe... talvez pode ser outra área de design”.

Ainda são poucos os grafiteiros em Maceió. Em suas oficinas e no dia a dia de trabalho, o Estúdio Reca vem tentando fazer com que essa manifestação artística tão ligada aos meios urbanos saia da marginalidade e possa virar até uma alternativa profissional para diversos jovens talentosos. A julgar pelo resultado final da oficina, grafitado na parede do jardim do Espaço Linda Mascarenhas, os participantes da oficina se saíram muito bem. Quem sabe esses jovens escutem algum dia a famosa canção Aquarela, de Toquinho e Vinicius de Moraes, e imaginem em um muro qualquer grafitar um sol amarelo.

 

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